Outro dia, durante uma sessão, uma paciente me disse: “Acho que tô viciada em reclamar. Mesmo quando tá tudo bem, eu dou um jeito de encontrar defeito.” Ela riu, meio constrangida, mas ali havia uma dor real. E mais do que isso, uma verdade que talvez todos nós já tenhamos vivido em algum momento da vida. Reclamar pode até parecer inofensivo — uma forma de desabafo, uma válvula de escape — mas, com o tempo, pode se tornar um padrão automático, que afeta profundamente nosso bem-estar.

A partir desse atendimento, comecei a refletir mais sobre esse comportamento e fui buscar o que a ciência diz sobre ele. E o que encontrei foi, no mínimo, alarmante.

Quando reclamar vira rotina

Todos nós reclamamos de vez em quando. Seja do trânsito, do calor, de um atendimento ruim ou da rotina cansativa. Reclamar, em si, não é o problema. O problema começa quando isso vira um hábito constante, uma lente através da qual passamos a enxergar tudo — e todos — com desconfiança, crítica e negatividade.

A neurociência tem estudado esse comportamento com cada vez mais interesse. E sabe o que ela descobriu? Que reclamar de forma repetitiva e crônica literalmente muda o funcionamento do nosso cérebro.

O cérebro aprende com aquilo que repetimos

Nosso cérebro é altamente plástico — ou seja, ele está sempre se moldando com base naquilo que vivemos, pensamos e sentimos. É como se ele tivesse um sistema de trilhas neurais que se aprofundam quanto mais as usamos. Então, se passamos o dia inteiro reclamando, estamos reforçando as conexões cerebrais ligadas à negatividade.

Segundo pesquisas, toda vez que reclamamos, estamos fortalecendo essas redes neurais — o que torna mais fácil reclamar da próxima vez. E da próxima. E da próxima. Com o tempo, reclamar deixa de ser uma escolha consciente e vira um padrão automático. O cérebro se adapta para funcionar no “modo reclamação”, e isso tem consequências diretas sobre nossa saúde mental.

Reclamar afeta o humor — e muito mais

Além de moldar o cérebro para a negatividade, o ato de reclamar ativa o eixo do estresse. Isso significa que, ao reclamar, liberamos hormônios como o cortisol — conhecido como o hormônio do estresse. Em níveis elevados e contínuos, o cortisol pode:

  • Aumentar a ansiedade e a irritabilidade
  • Prejudicar a memória e a concentração
  • Enfraquecer o sistema imunológico
  • Afetar a qualidade do sono

É como se cada reclamação colocasse o corpo em estado de alerta, mesmo que não haja um perigo real. E isso não afeta só quem reclama — mas também quem convive com esse padrão.

Lembro de um amigo muito querido que dizia que evitava certas conversas porque se sentia esgotado. “Parece que a energia da pessoa suga a minha”, ele confessava. Hoje entendo que ele estava descrevendo o que a ciência já comprova: a negatividade é contagiosa.

Estratégias para sair do ciclo da reclamação

Reconhecer que estamos reclamando demais já é um grande passo. Não se trata de se culpar, mas de observar com mais consciência. Aqui vão algumas estratégias que têm me ajudado — e que costumo sugerir também aos pacientes:

  1. Autopercepção: Durante alguns dias, tente anotar (ou simplesmente observar) quantas vezes você reclama e sobre o quê. Isso ajuda a identificar padrões.
  2. A pausa consciente: Quando sentir vontade de reclamar, pare por alguns segundos e respire. Pergunte a si mesmo: “Isso vai resolver o problema ou só me desgastar ainda mais?”
  3. Substitua a queixa por uma ação: Se algo te incomoda e está sob seu controle, pense em uma pequena atitude prática que possa tomar. Trocar a reclamação pela ação é libertador.
  4. Gratidão como antídoto: Nosso cérebro não consegue sentir gratidão e reclamação ao mesmo tempo. Criar o hábito de nomear coisas pelas quais somos gratos (mesmo pequenas) ajuda a mudar o foco e a trilha neural.
  5. Cuidado com o ambiente: Se você convive com pessoas que reclamam o tempo todo, isso vai te influenciar. Sempre que possível, estabeleça limites saudáveis ou tente mudar o tom da conversa.

E se reclamar for a única forma que aprendi a lidar?

Essa é uma pergunta profunda — e muito comum. Muitas vezes, reclamar é a linguagem que aprendemos para pedir acolhimento, para dizer que estamos cansados, frustrados ou inseguros. É a forma que encontramos para sermos vistos. E tudo bem. Mas a boa notícia é que podemos aprender outras formas mais saudáveis de nos expressar e nos relacionar com as dificuldades da vida.

A terapia, por exemplo, é um espaço onde podemos ressignificar esse hábito. Onde a queixa é acolhida, escutada — e, aos poucos, transformada em autoconhecimento e escolha consciente.

Concluindo: reclamar pode ser um alerta

Hoje vejo a reclamação como um termômetro emocional. Quando percebo que estou reclamando demais, tento não me julgar. Em vez disso, paro e me pergunto: O que está me faltando? O que estou tentando expressar com essa queixa? Às vezes, a resposta é simples: estou cansado. Outras vezes, mais profunda: estou me sentindo desconectado, inseguro, desvalorizado.

Reclamar pode ser um grito disfarçado por cuidado, por escuta, por mudança. Mas, se não olharmos com carinho para isso, podemos nos perder nesse ciclo e afetar nossa saúde emocional — e a das pessoas ao nosso redor.

E você? Já percebeu momentos em que reclamar virou um hábito? Como tem lidado com isso? Me conta aqui nos comentários — sua vivência pode ajudar outras pessoas também.


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